sexta-feira, 23 de outubro de 2015

CAPÍTULO 4

Já não bastasse o tédio do dia, Ofélia ainda teve que presenciar o garoto caindo do céu.
O estresse teve início pela manhã, quando seu irmão mais velho, Zeca, insistiu que ela levasse consigo o robô doméstico deles para a plantação. Tudo porque uma Fera tentou atacá-la no dia anterior.
Ofélia estremeceu só em lembrar. O felino de três metros de comprimento se aproximou sorrateiramente por trás dela. Se apenas a pata já era maior que Ofélia, ela nem quis saber o estrago que as presas poderiam causar. Por sorte, a sombra do bicho estragou o ataque e, graças à tesoura de jardinagem que a menina segurava e também aos seus maravilhosos reflexos rápidos, conseguiu golpear a criatura na jugular.
Ela bem que tentou argumentar com o irmão que não precisava de proteção. Afinal, o ataque foi um caso isolado; era extremamente difícil uma Fera se aproximar tanto da Cidade. Mas Zeca era teimoso e acreditava que Golias, o robô, aparentemente sua melhor invenção, tinha capacidade suficiente de garantir sua segurança.
Após seu irmão sair para trabalhar, Ofélia encarou o robô. Se a geringonça de três metros de altura pudesse transmitir algum sentimento humano, provavelmente seria o de constrangimento.
- Se você é realmente a melhor invenção do meu irmão – ela falou. –, então só posso ter muita pena dele.
Golias inclinou sua cabeça redonda, emitindo o único som que sabia:
- Plomp.
Pelo menos o robô serviu para ajudar em alguma coisa: carregar a carroça. No caminho para a plantação, Ofélia refletiu novamente a respeito do ataque do dia anterior. E se ela tivesse morrido? Do que adiantava um Reino cheio de câmeras se a Patrulha não estava lá na hora de um perigo mortal?
- Vida longa ao Rei Primo – ela resmungou, começando a verificar quais ervas e legumes poderiam ser colhidos.
- Plomp.
- Não lhe perguntei nada, lata-velha.
No caminho para o Jardim das Frutas, ela lembrou-se do quanto era parecida com seu primo Tomé. Ele repudiava máquinas, assim como a maioria dos moradores da Aldeia da Madeira. Ao contrário de Zeca, que dedicava sua vida à construção de baboseiras mecânicas.
O Reino de Primo era rico em tecnologia, mas parecia primitivo em muitas coisas. Por exemplo, ninguém conseguiu encontrar uma cura para os variados sintomas do cognos, o que poderia ter salvado a mãe de Ofélia de uma febre horrível e fatal. A realeza também poderia pensar em como fortificar a segurança dos trabalhadores; certamente teria impedido que o pai da menina morresse intoxicado com a fuligem dos robôs antigos.
Zeca ainda tinha esperanças em relação à tecnologia. Ele era a única razão de Ofélia ainda não ter voltado para Aldeia da Madeira.
Ela estava recolhendo algumas frutas e as colocando na carroça quando teve seus pensamentos atrapalhados por um rastro de fogo que rasgou o céu. A coisa, seja lá o que fosse, caiu perto dali. Tão perto que o impacto causou uma lufada de vento quente que derrubou Ofélia e Golias.
A garota só conseguiu se levantar depois que a terra parou de tremer.
A visão era atordoante. Uma enorme bola de fumaça se erguia além do Jardim de Frutas. Se aquilo causasse um incêndio, nem toda a água dos regadores dos campos de plantação seria capaz de apagar o fogo.
- Você viu isso, lata-velha? – ela se virou para o robô, que também se pôs de pé, sem grandes danos. Ele esticou o braço para a fumaça e rangeu:
- Plomp.
- Sinceramente, meu irmão precisa melhorar seu vocabulário...
A curiosidade ainda meteria Ofélia em uma grande enrascada. Ela não aguentou e caminhou até o local da explosão. Felizmente o impacto não causou muita destruição, pois muitas árvores e plantas permaneceram em pé, enquanto que foi possível constatar, à medida que ela se aproximava, que outras foram reduzidas a cinzas.
A fumaça se concentrava em uma pequena cratera. Apesar de o vapor ser grande, depois de muito esforço, Ofélia enxergou alguma coisa no centro do buraco.
- Espere aqui, saco de engrenagens – disse ela a Golias, colocando a camisa por cima do nariz e descendo a cratera.
Sim, a garota não tinha se enganado. Havia algo ali. Foi somente quando ficou a poucos centímetros que descobriu que se tratava de uma pessoa. Um garoto franzino e pálido estava estatelado no solo.
Ofélia se aproximou ainda mais e viu que o menino estava com os olhos semiabertos.
- Quem é você? – perguntou Ofélia. – E por que chegou desse jeito? Não tinha uma forma menos... destruidora de aparecer?
O rapaz abriu a boca, e ela teve que aproximar seu ouvido para escutar.
- Eu sou... Jacó – sua voz estava muito fraca. – Onde... Estou?
Ela suspeitou que ele tivesse usado toda a força que lhe restava para balbuciar aquelas palavras, pois desmaiou em seguida.
Ofélia suspirou. As opções eram escassas. E ele era até bonitinho.

- Bem, Jacó, menino incendiário que não sei de onde veio... Lamento que nosso primeiro encontro tenha sido assim. Bem-vindo à Evelum. 

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