Já não bastasse o
tédio do dia, Ofélia ainda teve que presenciar o garoto caindo do
céu.
O estresse teve início
pela manhã, quando seu irmão mais velho, Zeca, insistiu que ela
levasse consigo o robô doméstico deles para a plantação. Tudo
porque uma Fera tentou atacá-la no dia anterior.
Ofélia estremeceu só
em lembrar. O felino de três metros de comprimento se aproximou
sorrateiramente por trás dela. Se apenas a pata já era maior que
Ofélia, ela nem quis saber o estrago que as presas poderiam causar.
Por sorte, a sombra do bicho estragou o ataque e, graças à tesoura
de jardinagem que a menina segurava e também aos seus maravilhosos
reflexos rápidos, conseguiu golpear a criatura na jugular.
Ela bem que tentou
argumentar com o irmão que não precisava de proteção. Afinal, o
ataque foi um caso isolado; era extremamente difícil uma Fera se
aproximar tanto da Cidade. Mas Zeca era teimoso e acreditava que
Golias, o robô, aparentemente sua melhor invenção, tinha
capacidade suficiente de garantir sua segurança.
Após seu irmão sair
para trabalhar, Ofélia encarou o robô. Se a geringonça de três
metros de altura pudesse transmitir algum sentimento humano,
provavelmente seria o de constrangimento.
- Se você é realmente
a melhor invenção do meu irmão – ela falou. –, então só
posso ter muita pena dele.
Golias inclinou sua
cabeça redonda, emitindo o único som que sabia:
- Plomp.
Pelo menos o robô
serviu para ajudar em alguma coisa: carregar a carroça. No caminho
para a plantação, Ofélia refletiu novamente a respeito do ataque
do dia anterior. E se ela tivesse morrido? Do que adiantava um Reino
cheio de câmeras se a Patrulha não estava lá na hora de um perigo
mortal?
- Vida longa ao Rei
Primo – ela resmungou, começando a verificar quais ervas e legumes
poderiam ser colhidos.
- Plomp.
- Não lhe perguntei
nada, lata-velha.
No caminho para o Jardim
das Frutas, ela lembrou-se do quanto era parecida com seu primo Tomé.
Ele repudiava máquinas, assim como a maioria dos moradores da Aldeia
da Madeira. Ao contrário de Zeca, que dedicava sua vida à
construção de baboseiras mecânicas.
O Reino de Primo era
rico em tecnologia, mas parecia primitivo em muitas coisas. Por
exemplo, ninguém conseguiu encontrar uma cura para os variados
sintomas do cognos, o que poderia ter salvado a mãe de Ofélia de
uma febre horrível e fatal. A realeza também poderia pensar em como
fortificar a segurança dos trabalhadores; certamente teria impedido
que o pai da menina morresse intoxicado com a fuligem dos robôs
antigos.
Zeca ainda tinha
esperanças em relação à tecnologia. Ele era a única razão de
Ofélia ainda não ter voltado para Aldeia da Madeira.
Ela estava recolhendo
algumas frutas e as colocando na carroça quando teve seus
pensamentos atrapalhados por um rastro de fogo que rasgou o céu. A
coisa, seja lá o que fosse, caiu perto dali. Tão perto que o
impacto causou uma lufada de vento quente que derrubou Ofélia e
Golias.
A garota só conseguiu
se levantar depois que a terra parou de tremer.
A visão era atordoante.
Uma enorme bola de fumaça se erguia além do Jardim de Frutas. Se
aquilo causasse um incêndio, nem toda a água dos regadores dos
campos de plantação seria capaz de apagar o fogo.
- Você viu isso,
lata-velha? – ela se virou para o robô, que também se pôs de pé,
sem grandes danos. Ele esticou o braço para a fumaça e rangeu:
- Plomp.
- Sinceramente, meu
irmão precisa melhorar seu vocabulário...
A curiosidade ainda
meteria Ofélia em uma grande enrascada. Ela não aguentou e caminhou
até o local da explosão. Felizmente o impacto não causou muita
destruição, pois muitas árvores e plantas permaneceram em pé,
enquanto que foi possível constatar, à medida que ela se
aproximava, que outras foram reduzidas a cinzas.
A fumaça se concentrava
em uma pequena cratera. Apesar de o vapor ser grande, depois de muito
esforço, Ofélia enxergou alguma coisa no centro do buraco.
- Espere aqui, saco de
engrenagens – disse ela a Golias, colocando a camisa por cima do
nariz e descendo a cratera.
Sim, a garota não
tinha se enganado. Havia algo ali. Foi somente quando ficou a poucos
centímetros que descobriu que se tratava de uma pessoa. Um garoto
franzino e pálido estava estatelado no solo.
Ofélia se aproximou
ainda mais e viu que o menino estava com os olhos semiabertos.
- Quem é você? –
perguntou Ofélia. – E por
que
chegou desse jeito? Não tinha uma forma menos... destruidora
de aparecer?
O rapaz abriu a boca, e
ela teve que aproximar seu ouvido para escutar.
- Eu sou... Jacó –
sua voz estava muito fraca. – Onde... Estou?
Ela suspeitou que ele
tivesse usado toda a força que lhe restava para balbuciar aquelas
palavras, pois desmaiou em seguida.
Ofélia suspirou. As
opções eram escassas. E ele era até bonitinho.
- Bem, Jacó, menino
incendiário que não sei de onde veio... Lamento que nosso primeiro
encontro tenha sido assim. Bem-vindo à Evelum.
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