"As crônicas de Jacó: o Herdeiro de Evelum" é uma obra de literatura fantástica que gira em torno de Jacó, um garoto que não sabe muito sobre seu passado e que se sente constantemente como um peixe fora d'água. Ou se sentia, até que algo fizesse com que ele viajasse a um universo paralelo extremamente mais desenvolvido que o nosso.
Sem muitas informações e em um mundo completamente diferente do que habitava, Jacó descobre ser imortal e começa a viver uma história de perseguição. No outro planeta, todos querem a imortalidade que um dia tiveram e a perderam. Será possível recuperá-la?
À medida que a história se desenvolve fatos surpreendentes começam a ser revelados.
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terça-feira, 3 de novembro de 2015
sexta-feira, 23 de outubro de 2015
CAPÍTULO 1
As coisas começaram a
ficar confusas quando um robô homicida atacou Jacó.
Era um dia normal. Jacó
acordou cedo, fez o caminho rotineiro até a escola e – como
acontecia toda quarta-feira – assistia a aula semanal de Filosofia
antes do intervalo.
Particularmente, era a
matéria que Jacó mais gostava; o ajudava a refletir bastante a
respeito da sociedade e da realidade. Em especial, naquele desastroso
dia, o professor Laurêncio, com seu cavanhaque estiloso e óculos
tortos, falava sobre Platão, Teoria das Ideias, e o Mito da Caverna.
- E se o que
acreditamos não for real? – perguntou o professor. – E se tudo o
que tocamos, sentimos e vemos for pura ilusão? Como podemos nos
considerar parte deste mundo? E se na verdade fizermos parte de algo
muito maior, mais importante, algo que está acima da normalidade?
Valeria a pena sair do casulo?
Perguntas
interessantes,
pensou Jacó. Ele próprio já tinha perdido a conta de quantas vezes
se sentiu um estranho no ninho, um turista em terras desconhecidas. O
fato de a sua história ter tido um começo difícil e inexplicável
o ajudava a fortalecer a ideia de que ele pertencia a outro lugar.
Jacó não lembrava
absolutamente nada do que aconteceu em sua vida antes dos sete anos.
Com esta idade foi encontrado em frente a um orfanato, em uma noite
chuvosa, sozinho e sem memória de quem o deixou ali. Somente sabia
seu nome. Passou algum tempo no orfanato, mas ali já se destacava
por ser diferente dos outros; era a única criança que preferia ler
o dia inteiro a brincar com os amigos órfãos.
Pouco tempo depois foi
adotado pelo casal Silva. A mãe, Marlene, era enfermeira. O pai,
Jarbas, era professor universitário de Ciências Aplicadas. Jacó
não tinha do que reclamar; era o único filho deles, recebeu todo
carinho e educação que uma criança solitária necessitava.
Mesmo agora, dez anos
depois de ter sido aparentemente abandonado e encontrado, tudo o que
Jacó tinha de sua vida passada são dois vestígios; o primeiro é
um globo de vidro, suficientemente grande para caber na palma da mão,
enviado para ele poucos dias depois de ter chegado ao orfanato. Ele
se lembra de um boato de que um tio distante tinha lhe presenteado
com o objeto, porém, se fosse o caso, por que o homem nunca foi
buscar o sobrinho?
É lógico que, após
ter ficado mais velho, Jacó percebeu que isso não passava de
conversa fiada. O curioso é que qualquer outra pessoa teria jogado a
bola de vidro fora, ou teria tentado quebrá-la, ou até os pais
adotivos convenceriam o filho a doar o objeto para uma criança
carente.
Todas essas alternativas
seriam válidas se a esfera em questão fosse normal, e a de Jacó
definitivamente tinha um diferencial peculiar: ela era indestrutível
e difícil de desapegar. Ele tentou quebrá-la de diversas maneiras e
nunca teve sucesso. Que tipo de vidro era esse? E por mais que ela
fosse inútil (nem para decorar o quarto ela servia), o garoto não
conseguia se livrar dela; sentia um apego muito grande. Inclusive,
ele a deixava dentro da mochila da escola, carregando-a consigo o
tempo todo.
Muitas vezes ele se
pegou encarando a bola, talvez com a mesma voracidade de um ladrão
que quer arrombar um cofre. O vidro era negro, e embora o seu
interior não fosse transparente, era possível enxergar pequenos
pontos luminosos, como uma galáxia em miniatura. Se a bola pudesse
falar, certamente teria uma boa história para contar.
A outra pista que tinha
de seu passado eram breves lapsos de lembranças. Nada muito
consistente, apenas relances rápidos de uma enorme árvore repleta
de frutos pretos, um homem de cabelo e barbas negros e uma gigantesca
cidade branca... Tão branca que ofuscava os olhos. Com certeza eram
três coisas impossíveis de interligar. O problema é que se esses
vislumbres fossem raros, poderiam ser facilmente ignorados. Porém,
na medida em que Jacó foi envelhecendo, as visões foram aumentando.
Agora aconteciam no mínimo três vezes por semana e eram sempre
iguais.
O sinal do intervalo
tocou, fazendo o garoto recuperar o senso da realidade. Leandra, sua
melhor amiga, o cutucou. Ela estava mais bonita que o normal, com seu
cabelo encaracolado amarrado em um rabo-de-cavalo. Ele gostava quando
a amiga usava esse penteado, pois ajudava a realçar a beleza do seu
rosto moreno.
Os pais de Leandra
faleceram antes de ela completar um ano de vida e desde então foi
criada pela avó e uma tia. Talvez por isso Jacó se identificasse
tanto com ela.
- Está na hora da nossa
reunião – ela disse, com sua mochila em mãos.
- Somos empresários –
respondeu Jacó, com um sorriso irônico. – Não esquecer
compromissos faz parte das nossas obrigações.
Jacó pegou sua mochila
e caminhou para fora da escola. O encontro que havia marcado seria
atrás do ginásio, quase no limite do quarteirão. Quanto maior a
distância, menor eram as chances de serem pegos. Existia um terreno
abandonado atrás do ginásio, mas havia um beco entre o muro do
terreno e a parede do ginásio.
Mário e seus fiéis
escudeiros já estavam lá. Erique, um dos melhores jogadores de
vôlei da escola, erguia uma pilha de tijolos para exercitar os
bíceps. Como se ele já não fosse forte o suficiente. Roan
terminava de comer um sanduíche enquanto conferia mensagens no
celular. Mário era o mais nervoso do trio – e também o mais baixo
– e não se acalmou ao ver Jacó.
- E aí? – ele
perguntou. – Pensou na proposta?
- Bom dia para você
também – rebateu Leandra.
- Sim, eu pensei –
Jacó respondeu, abrindo a mochila e retirando uma pasta cheia de
atividades e trabalhos. – E após uma longa conversa com minha
sócia, decidimos continuar com o novo valor.
- Isso não é justo! –
protestou Roan, com um pedaço do sanduíche entre os dentes. –
Vocês sempre tiveram um preço fixo. Por que aumentar o valor agora?
- Vamos ver... – falou
Leandra, olhando para cima e contando nos dedos. – Considerando o
tempo perdido para fazer os trabalhos por vocês...
- E toda a criatividade
para que nenhum professor perceba que nós dois somos os verdadeiros
autores... – complementou Jacó.
- Todo o suor, o
estresse, o esforço...
- E se também levarmos
em conta a inflação do comércio e os juros...
- Então, nada mais
justo que nossa recompensa tenha um pequeno acréscimo – concluiu
Leandra.
- Vocês ouviram minha
sócia – enfatizou Jacó. – Negócios são negócios.
O passado de Jacó
poderia ser nebuloso e cheio de dúvidas, mas o presente era bem
divertido. Ele e Leandra eram os alunos da classe que tinham as notas
mais altas. Possuíam extrema facilidade para assimilar os conteúdos
e ainda tinham tempo de sobra para fazer provas e trabalhos de
estudantes preguiçosos. Por questões óbvias,
ambos cobravam pelo serviço e Mário era um dos melhores clientes.
Erique largou os tijolos
e iniciou uma sequência de abdominais no chão.
- É melhor pagar, Mário
– falou o atleta. – Não estou nem um pouco interessado em sair
do time por causa de notas baixas.
- Escute seu amigo –
sugeriu Leandra. – Parece que há sabedoria por baixo dos músculos.
- O tempo é curto –
disse Jacó. – Temos outra reunião depois daqui.
Mário parecia um pouco
hesitante, mas o medo de ser reprovado falava mais alto. Ele tinha o
hábito estranho de se coçar quando ficava nervoso.
- Tudo bem – ele
cedeu, entregando o dinheiro e coçando o ombro. – Negócio
fechado.
E então aconteceu.
Antes que os dedos de Jacó pudessem tocar no dinheiro, a parede do
beco explodiu. Eles estavam acostumados a ouvir o som da explosão de
uma bomba de festa junina, mas aquele barulho lembrou o impacto de
uma bala de canhão, no mínimo. Pelo menos para isso
serviram os documentários de guerra que eram expostos nas aulas de
História.
Todos gritaram e
desabaram no chão com o susto. Fumaça e poeira taparam a boca e os
olhos de Jacó. Ele mal teve tempo de saber se Leandra estava ferida,
ou se alguma parte do seu corpo tinha ido parar na China. Após
tossir a poeira e a terra, limpou os olhos e não acreditou no que
viu.
Uma cortina de fumaça
brotava de uma cratera no meio do muro. E de dentro do buraco, por
incrível que pareça, irrompeu um robô de três metros de altura.
Um homem pulou de um compartimento no interior do robô.
O sujeito usava um
capacete metálico com visor transparente. Ele estava com uma
armadura esquisita, meio azulada, e seu braço esquerdo era robótico.
Ele levantou o visor e observou o estrago feito.
- Desculpe, crianças.
Atrapalhei alguma coisa?
CAPÍTULO 2
Jacó desejou que Mário
e seus amigos nunca tivessem levantado. Teria poupado a correria.
Felizmente, todos
estavam bem. Cobertos de sujeira e espantados com um robô que tinha
acabado de fazer um rombo no muro, mas, fora isso, nenhum ferimento
grave.
Por alguma razão, Jacó
preferiu não se mexer e segurou o braço de Leandra para que a amiga
não fizesse qualquer tipo de besteira, porque, pela cara dela, deu
para notar que vontade não faltava. Contudo, para o azar deles,
Mário também estava lá.
O garoto começou a
rir. Roan e Erique também.
- Que troço é esse? –
perguntou Mário. – É uma fantasia de Dia das Bruxas?
- Dia das Bruxas? –
repetiu o homem. – O que vem a ser isso?
- Cara, já sei! –
exclamou Roan, gargalhando. – É uma pegadinha do Silvio Santos!
Jacó percebeu que não
seria nem um pouco inteligente contrariar aquele cara. Era possível
concluir que a explosão foi causada pelo robô, pois um de seus
braços tinha o formato de uma gigantesca bazuca. Observando melhor a
estrutura metálica da criatura, Jacó se questionou quais outros
tipos de armas ela poderia ter... Mísseis? Torpedos? Talvez fosse
melhor não saber.
- Eu não faço ideia
do que vocês estão falando – disse o homem. – A sua espécie é
bem estranha e irritante, de modo que vou direto ao assunto – Ele
aproximou o braço metálico do rosto e digitou alguma coisa no
pequeno teclado portátil. – Meu radar captou o sinal de um objeto
pertencente ao meu mundo. O sinal indica esta posição, o que me
leva a crer que um de vocês é quem procuro. Portanto, vamos direto
ao que interessa. Qual de vocês é o Herdeiro de Evelum?
Evelum.
O nome arrepiou Jacó dos pés à cabeça. Uma fraqueza tomou conta
de seu corpo; ele ficou tonto e teve vontade de vomitar. Imagens
passaram rapidamente diante de seus olhos. No entanto, era necessário
recuperar a atenção... Se o homem procurava alguém e pilotava um
robô capaz de explodir coisas, suas intenções não poderiam ser
amistosas.
- Esse cara só pode
estar chapado! – gritou Erique, também achando engraçado.
- Pode crer! –
concordou Mário. – Não somos usuários, cara. Você deve ter nos
confundido com outra turma. Agora, se nos der licença, estávamos no
meio de uma negociação.
- Pessoal – chamou
Jacó. – Talvez seja melhor a gente ir embora.
O homem encarou Jacó
por alguns segundos.
- É você, não é? –
um sorriso nasceu em seu rosto. – Não está reconhecendo a
linhagem da sua terra natal, Jacó?
Todos encararam Jacó
com expressões confusas. O próprio garoto não estava entendendo
nada.
- Cara, na moral,
ninguém aqui sabe do que você tá falando – disse Roan. – Mas
antes de você ir embora, pode falar onde conseguiu essa beleza de
robô?
Roan tentou se
aproximar do robô, porém ninguém esperava o que veio em seguida. O
homem ergueu seu braço metálico e atingiu o menino com um forte
laser.
Uma mancha preta
surgiu no local onde Roan tinha pisado pela última vez. Partículas
de pó flutuaram pelo beco. Apenas um cego não teria entendido o que
aconteceu ali. Roan foi literalmente pulverizado.
- E então? –
perguntou o homem, ainda com o braço erguido. – Quem vai ser o
próximo?
Mário gritou em
desespero e esse foi o sinal que Jacó esperava parar começar a
correr.
Ele agarrou com mais
força o braço de Leandra e a conduziu à porta lateral do ginásio.
E, como ovelhas ensandecidas que seguem fielmente seu pastor, Mário
e Erique foram logo atrás. O quarteto entrou no ginásio e encontrou
um grupo de alunos treinando futebol.
Jacó imediatamente
compreendeu o erro que cometeu. Não demorou muito. Em questão de
segundos, uma mão robótica arrancou parte do telhado. Todos os
alunos olharam para o buraco recém-formado e viram o robô
despencando. O piso rachou assim que ele pousou.
O pânico se espalhou.
Em meio a tantos alunos gritando e correndo de um lado para o outro,
o robô pareceu perder seu alvo de vista. Jacó se aproveitou disso e
decidiu sair do ginásio. Entretanto, o robô, em um barulho
assustador, atravessou a parede do prédio, espalhando pedras e
tijolos pela rua.
- Não adianta correr,
Jacó! – falou o homem de dentro do robô. Sua voz estava
amplificada. – Posso acompanhar seus passos!
Jacó avançou pela
rua, com o robô em seu encalço. Caramba, a criatura corria bem
rápido! O plano era se afastar o máximo possível. Ele tentou guiar
Leandra e os outros para a avenida mais próxima, mas o caminho foi
interrompido por um carro arremessado pelo robô. O veículo explodiu
assim que tocou no calçamento.
Tudo bem, achar nova
rota. Eles desviaram o percurso em direção à escola. Talvez fosse
provável que o homem de braço metálico ficasse atrapalhado no meio
do tumulto de estudantes. Porém, antes que pudessem cruzar a porta
de entrada do colégio, a mão do robô conseguiu pegar Erique.
- NÃÃÃÃÃÕOOOO...
O atleta voou pelo céu
feito uma bola de golfe, e desapareceu.
- Meu Deus! Meu Deus! –
o grito de Mário superava os dos outros. – Eu não quero morrer!
Mário correu para
outra direção.
- Volte aqui, seu
tapado! – gritou Leandra, mas já era tarde.
Dentro da escola, Jacó
pensou no local mais discreto possível para se esconder. Lembrou-se
de um trabalho de Matemática, no qual teve que calcular a área do
colégio inteiro; em sua pesquisa, ele conseguiu deduzir que no caso
de terremotos e explosões, existia um cômodo perfeito onde poderia
se proteger. A biblioteca. Se corressem até lá, poderiam se
esconder na sala da bibliotecária.
Provavelmente a sala não
era guarnecida de segurança contra máquinas destruidoras e
aterrorizantes, ainda assim o garoto alertou sua amiga e ambos
seguiram o rumo almejado. Eles estavam correndo por um longo corredor
com salas de aula quando escutaram uma explosão que fez tudo tremer.
O homem deveria estar perdendo a paciência.
Ele e Leandra
atravessaram o pátio da escola sem se importar com o caos do
incêndio que se formava. Infelizmente, o robô os encontrou outra
vez e começou a arremessar coisas, como se brincasse de tiro ao
alvo. Algo parecido com um armário em chamas passou raspando pelos
dois.
- Por que se esconde de
mim, Herdeiro de Evelum? – falava o homem, claramente se
divertindo. – Tem medo de me enfrentar? Onde estão suas
mirabolantes habilidades? Não acredito que vim de tão longe apenas
para descobrir que a lenda de fato é uma farsa! Meu Rei não
suportaria essa decepção!
- Do que é que ele
está falando? – perguntou Leandra.
- Eu sei lá! –
respondeu Jacó, quase no limite da exaustão. – Continue correndo!
Eles quase arrancaram
as portas das dobradiças no momento que adentraram na biblioteca.
Por sorte, não tinha mais ninguém lá. Jacó visualizou, no fundo
do salão, muito depois dos livros, a sala da bibliotecária. Era a
luz no fim do túnel.
Eles não pensaram duas
vezes e correram. De repente o ditado “chegar com muita sede ao
pote” passou a fazer sentido. Quando tentaram abrir a porta da
sala, todas as esperanças foram dissipadas.
- Está trancada! –
praguejou Leandra. – E agora?
O coração de Jacó
parou, se é que ainda funcionava para alguma coisa àquela altura. O
garoto percebeu que não havia mais o que fazer. Suas conclusões
foram confirmadas quando o robô quebrou a parede lateral da
biblioteca, trazendo consigo um rastro de fogo e fumaça.
E então, de um modo
completamente inexplicável, ele entendeu. O homem disse que seu
radar tinha captado uma coisa. Jacó abriu sua mochila e viu a sua
velha bola de vidro. Só podia ser isso.
Não importava o quanto
corresse ou quantos lugares encontrasse para se esconder, enquanto
ele estivesse com a bola, o robô sempre o perseguiria.
- Saia daqui – Jacó
pediu a Leandra.
- O que você vai fazer?
Jacó caminhou em
direção ao robô, a mochila em uma das mãos.
- Ah, finalmente
compreendeu, não é? – falou a voz do homem. – Fico contente em
saber que as qualidades do Herdeiro de Evelum não se resumem a medo
e covardia.
O robô parecia ainda
mais ameaçador de perto, mas Jacó se manteve firme. Colocou a mão
na mochila e retirou o globo.
- É isso o que quer?
O robô recuou alguns
passos e a voz do homem ficou nervosa.
- Cuidado com isso,
Jacó. Não se precipite.
Jacó quase não
acreditou no que ouviu. Teria encontrado o ponto fraco daquele
sujeito?
- O que foi? – zombou
o garoto. – Está com medo de uma bolinha?
- Eu não esperava que
fosse... – o homem parecia abismado. – Como pode?
- Na verdade, nem eu sei
muito bem. Essa bola é tão misteriosa quanto eu.
- Entregue-a para mim.
- Vem pegar.
- Está me desafiando?
- É, parece que alguém
aqui finalmente começou a usar o cérebro.
O robô esticou os
braços. Jacó jogou a bola no chão com toda a sua força.
Ele desejou imensamente,
do fundo do coração, que sua ideia estúpida desse certo, embora as
chances fossem mínimas. Jamais havia conseguido quebrar, sequer
arranhar, a esfera de vidro. O que esperava que fosse acontecer? Que
ela explodisse igual a uma granada?
Milagrosamente, o
impossível se fez realidade. O vidro trincou. Depois, a rachadura se
aprofundou. Em seguida, se estilhaçou. Por alguns segundos, o homem
dentro do robô e Jacó ficaram parados, observando e esperando,
perplexos, o que iria acontecer.
O que sobrou do globo
começou a tragar tudo o que havia em volta, como se fosse um
aspirador de pó descontrolado. Estantes, livros, mesas... nada
escapou. O vento que invadiu o lugar foi forte o bastante para fazer
o robô girar pelo ar e o teto se quebrar em diversos pedaços.
Jacó só teve tempo de
se agarrar a uma das pilastras do salão e se arrepender do que fez.
Quem iria imaginar que o objeto que ele carregou durante anos fosse
se transformar em um buraco negro? Ele pensou ter escutado o grito
distante de Leandra e se lembrou de que nem teve a certeza se ela
realmente tinha ido embora.
A pilastra rachou. Iria
se romper em poucos segundos. A biblioteca inteira seria sugada. O
vento continuava tragando as coisas para dentro da esfera,
impiedosamente. Jacó teve a certeza de que não adiantava lutar. Era
uma batalha perdida.
Respirou fundo e soltou
a pilastra.
E tudo se tornou
escuridão.
CAPÍTULO 3
O lado bom de trabalhar
com máquinas é que elas sempre são confiáveis. Pelo menos foi
nisso que Melissa pensou quando o alarme tocou.
Ela era
Supervisora-Chefe de Monitoramento da Área Leste. Basicamente, ela e
sua equipe tinham a função de observar pessoas e os ambientes por
meio das imagens transmitidas pelas câmeras espalhas pelo Reino.
A garota sentia orgulho
de sua função, embora não fosse tão emocionante. Era raro as
câmeras flagrarem confusões ou delitos na Área Leste, uma vez que
era a região mais pacífica do Reino. O lado bom é que também
podia monitorar as terras distantes, além da Cidade.
Às vezes, quando ela
direcionava uma câmera para sobrevoar os campos de plantação e as
florestas, sentia uma paz muito grande, e ficava ainda mais admirada
quando as telas registravam a aparição de uma Fera. Aquelas
criaturas poderiam ser feias e nojentas, mas despertavam certa
curiosidade.
Naquele instante, sua
equipe monitorava as ruas da Área Leste. Cada funcionário tinha seu
respectivo monitor e tudo parecia calmo... Até o alarme tocar. O som
era agudo e fez toda a equipe paralisar. As telas ficaram pretas e
começaram a exibir um pontinho vermelho cruzando uma linha azul.
A imagem foi transferida
para o telão central anexado a uma parede.
- O que está
acontecendo? – perguntou Melissa, levantando-se de sua mesa.
Um homem de sua equipe
respondeu:
- Estamos recebendo o
sinal de um satélite. Algo acabou de entrar na nossa atmosfera. Está
atravessando o Appa.
- Fale uma coisa que eu
já não saiba – ela disse.
Melissa sabia exatamente
o que a imagem estava retratando. Fazia parte do seu treinamento
saber deste tipo de informação. O problema é que ela não tinha o
conhecimento de nenhuma viagem espacial feita nos últimos dias.
Tampouco nos últimos meses.
Sendo assim... O
que
estava entrando no planeta?
- Temos algum registro
de meteoritos orbitando perto de nós?
- Não – respondeu
outro funcionário, clicando em sua tela e verificando os arquivos. –
A órbita está limpa.
Melissa se aproximou do
telão, intrigada.
- O que é você?
- Chefe? O objeto está
se partindo...
Era verdade. A imagem
mostrou que o ponto vermelho se dividiu em três pontinhos. Melissa
soube que não poderia perder tempo. Tampouco poderia ficar nervosa
diante de uma situação desconhecida; não existia protocolo para
isso.
- Acionem os radares –
ela ordenou. – Estabeleçam uma rota de colisão. Aproximem as
câmeras; quero ver o momento do impacto.
Por mais que não
estivesse habituada com tarefas rápidas, a equipe se saiu bem. Com a
ajuda do sistema, o cálculo da trajetória de colisão logo foi
traçado.
- Um dos pedaços vai
cair na nossa região, perto das plantações. Os outros dois... No
litoral, próximo a Dao.
- Ótimo – falou
Melissa, mantendo a calma. – O que as câmeras dizem?
- Conseguiram registrar
a imagem de um deles!
- Fotografe e transfira
para o telão.
A imagem do satélite
foi substituída pela foto de um objeto em chamas, mas não dava para
identificar o que poderia ser.
- Aproximem – pediu
Melissa.
A foto foi ampliada e
então foi possível ver uma estrutura metálica. Mas isso seria
bastante improvável...
- Isso é uma armadura
robótica da Patrulha? – indagou um funcionário.
- É o que parece –
respondeu Melissa. – Imprimam. Tem alguém que precisa ver isso.
CAPÍTULO 4
Já não bastasse o
tédio do dia, Ofélia ainda teve que presenciar o garoto caindo do
céu.
O estresse teve início
pela manhã, quando seu irmão mais velho, Zeca, insistiu que ela
levasse consigo o robô doméstico deles para a plantação. Tudo
porque uma Fera tentou atacá-la no dia anterior.
Ofélia estremeceu só
em lembrar. O felino de três metros de comprimento se aproximou
sorrateiramente por trás dela. Se apenas a pata já era maior que
Ofélia, ela nem quis saber o estrago que as presas poderiam causar.
Por sorte, a sombra do bicho estragou o ataque e, graças à tesoura
de jardinagem que a menina segurava e também aos seus maravilhosos
reflexos rápidos, conseguiu golpear a criatura na jugular.
Ela bem que tentou
argumentar com o irmão que não precisava de proteção. Afinal, o
ataque foi um caso isolado; era extremamente difícil uma Fera se
aproximar tanto da Cidade. Mas Zeca era teimoso e acreditava que
Golias, o robô, aparentemente sua melhor invenção, tinha
capacidade suficiente de garantir sua segurança.
Após seu irmão sair
para trabalhar, Ofélia encarou o robô. Se a geringonça de três
metros de altura pudesse transmitir algum sentimento humano,
provavelmente seria o de constrangimento.
- Se você é realmente
a melhor invenção do meu irmão – ela falou. –, então só
posso ter muita pena dele.
Golias inclinou sua
cabeça redonda, emitindo o único som que sabia:
- Plomp.
Pelo menos o robô
serviu para ajudar em alguma coisa: carregar a carroça. No caminho
para a plantação, Ofélia refletiu novamente a respeito do ataque
do dia anterior. E se ela tivesse morrido? Do que adiantava um Reino
cheio de câmeras se a Patrulha não estava lá na hora de um perigo
mortal?
- Vida longa ao Rei
Primo – ela resmungou, começando a verificar quais ervas e legumes
poderiam ser colhidos.
- Plomp.
- Não lhe perguntei
nada, lata-velha.
No caminho para o Jardim
das Frutas, ela lembrou-se do quanto era parecida com seu primo Tomé.
Ele repudiava máquinas, assim como a maioria dos moradores da Aldeia
da Madeira. Ao contrário de Zeca, que dedicava sua vida à
construção de baboseiras mecânicas.
O Reino de Primo era
rico em tecnologia, mas parecia primitivo em muitas coisas. Por
exemplo, ninguém conseguiu encontrar uma cura para os variados
sintomas do cognos, o que poderia ter salvado a mãe de Ofélia de
uma febre horrível e fatal. A realeza também poderia pensar em como
fortificar a segurança dos trabalhadores; certamente teria impedido
que o pai da menina morresse intoxicado com a fuligem dos robôs
antigos.
Zeca ainda tinha
esperanças em relação à tecnologia. Ele era a única razão de
Ofélia ainda não ter voltado para Aldeia da Madeira.
Ela estava recolhendo
algumas frutas e as colocando na carroça quando teve seus
pensamentos atrapalhados por um rastro de fogo que rasgou o céu. A
coisa, seja lá o que fosse, caiu perto dali. Tão perto que o
impacto causou uma lufada de vento quente que derrubou Ofélia e
Golias.
A garota só conseguiu
se levantar depois que a terra parou de tremer.
A visão era atordoante.
Uma enorme bola de fumaça se erguia além do Jardim de Frutas. Se
aquilo causasse um incêndio, nem toda a água dos regadores dos
campos de plantação seria capaz de apagar o fogo.
- Você viu isso,
lata-velha? – ela se virou para o robô, que também se pôs de pé,
sem grandes danos. Ele esticou o braço para a fumaça e rangeu:
- Plomp.
- Sinceramente, meu
irmão precisa melhorar seu vocabulário...
A curiosidade ainda
meteria Ofélia em uma grande enrascada. Ela não aguentou e caminhou
até o local da explosão. Felizmente o impacto não causou muita
destruição, pois muitas árvores e plantas permaneceram em pé,
enquanto que foi possível constatar, à medida que ela se
aproximava, que outras foram reduzidas a cinzas.
A fumaça se concentrava
em uma pequena cratera. Apesar de o vapor ser grande, depois de muito
esforço, Ofélia enxergou alguma coisa no centro do buraco.
- Espere aqui, saco de
engrenagens – disse ela a Golias, colocando a camisa por cima do
nariz e descendo a cratera.
Sim, a garota não
tinha se enganado. Havia algo ali. Foi somente quando ficou a poucos
centímetros que descobriu que se tratava de uma pessoa. Um garoto
franzino e pálido estava estatelado no solo.
Ofélia se aproximou
ainda mais e viu que o menino estava com os olhos semiabertos.
- Quem é você? –
perguntou Ofélia. – E por
que
chegou desse jeito? Não tinha uma forma menos... destruidora
de aparecer?
O rapaz abriu a boca, e
ela teve que aproximar seu ouvido para escutar.
- Eu sou... Jacó –
sua voz estava muito fraca. – Onde... Estou?
Ela suspeitou que ele
tivesse usado toda a força que lhe restava para balbuciar aquelas
palavras, pois desmaiou em seguida.
Ofélia suspirou. As
opções eram escassas. E ele era até bonitinho.
- Bem, Jacó, menino
incendiário que não sei de onde veio... Lamento que nosso primeiro
encontro tenha sido assim. Bem-vindo à Evelum.
CAPÍTULO 5
Melissa esteve poucas
vezes no gabinete do príncipe Sétimo, e ainda assim era somente
para participar de reuniões.
A sala ficava no último
andar da Torre de Vigilância. Quando o elevador parou, as portas se
abriram e ela entrou no gabinete. Os outros três Supervisores já se
encontravam lá e obviamente não se deram ao trabalho de esperá-la
chegar.
Sétimo sempre era
educado e simpático com seus funcionários. Sua sala transmitia um
pouco da sua personalidade; não havia nenhum tipo de objeto que
demonstrasse riqueza ou poder, pelo contrário: peças de câmeras
flutuantes ficavam espalhadas por todos os lados juntamente com
folhas preenchidas por projetos fracassados. Apesar de ser um pouco
desorganizado, Melissa admirava o príncipe por seu senso de otimismo
e visão futurista. Ele sempre marcava reunião com os Projetistas em
busca do aperfeiçoamento do sistema de segurança do Reino.
Porém, naquele dia, ele
parecia um pouco preocupado. Encarava a própria mesa enquanto
escutava o relatório dos Supervisores. Melissa parou ao lado do
único pertence esquisito do gabinete: a cabeça peluda de uma Fera
da raça ursídeo, com três olhos e dentes enormes. Mais um presente
exótico do príncipe Seculis.
- Não há com o que se
preocupar, Vossa Alteza – tranquilizava o Supervisor do Sul. – Os
objetos estranhos caíram longe daqui.
- Tem certeza de que não
preciso me preocupar? – questionou o príncipe. – Então de onde
vieram essas coisas?
- Ainda não temos
certeza, Alteza – respondeu a Supervisora do Oeste. – Apenas
teremos um diagnóstico quando os objetos forem recolhidos e
examinados.
- A Patrulha já foi
acionada – informou o Supervisor do Norte. – Em breve teremos
mais notícias. Está tudo sobre controle.
- Será? – indagou
Melissa.
Foi somente então que
perceberam a presença dela. A expressão dos outros Supervisores
indicou que não gostaram de ser contrariados.
- Aproxime-se, Melissa –
autorizou Sétimo. – O que tem para nós?
- Minha equipe registrou
esta imagem momentos antes do impacto – ela deu alguns passos à
frente, entregando a foto para o príncipe.
A princípio, Sétimo
pareceu não acreditar na veracidade da fotografia. Ele estreitou os
olhos para que pudesse ver melhor.
- Isso é uma armadura
robótica da Patrulha?
- Sim, Alteza –
confirmou Melissa.
Os outros Supervisores
zombaram.
- Com todo respeito,
Alteza, isso não faz o menor sentido. Um robô da frota militar
vindo do espaço? É impossível. Não foram programados para isso.
Contudo, Sétimo ficou
em um estado catatônico. Foi como se estivesse tendo uma revelação.
- Infelizmente preciso
concordar, Alteza – Melissa interrompeu o devaneio do príncipe. –
O que significa isso?
Sétimo abriu um largo
sorriso e olhou para seus Supervisores.
- Significa que o bom
filho a casa torna.
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