sexta-feira, 23 de outubro de 2015

CAPÍTULO 1

As coisas começaram a ficar confusas quando um robô homicida atacou Jacó.
Era um dia normal. Jacó acordou cedo, fez o caminho rotineiro até a escola e – como acontecia toda quarta-feira – assistia a aula semanal de Filosofia antes do intervalo.
Particularmente, era a matéria que Jacó mais gostava; o ajudava a refletir bastante a respeito da sociedade e da realidade. Em especial, naquele desastroso dia, o professor Laurêncio, com seu cavanhaque estiloso e óculos tortos, falava sobre Platão, Teoria das Ideias, e o Mito da Caverna.
- E se o que acreditamos não for real? – perguntou o professor. – E se tudo o que tocamos, sentimos e vemos for pura ilusão? Como podemos nos considerar parte deste mundo? E se na verdade fizermos parte de algo muito maior, mais importante, algo que está acima da normalidade? Valeria a pena sair do casulo?
Perguntas interessantes, pensou Jacó. Ele próprio já tinha perdido a conta de quantas vezes se sentiu um estranho no ninho, um turista em terras desconhecidas. O fato de a sua história ter tido um começo difícil e inexplicável o ajudava a fortalecer a ideia de que ele pertencia a outro lugar.
Jacó não lembrava absolutamente nada do que aconteceu em sua vida antes dos sete anos. Com esta idade foi encontrado em frente a um orfanato, em uma noite chuvosa, sozinho e sem memória de quem o deixou ali. Somente sabia seu nome. Passou algum tempo no orfanato, mas ali já se destacava por ser diferente dos outros; era a única criança que preferia ler o dia inteiro a brincar com os amigos órfãos.
Pouco tempo depois foi adotado pelo casal Silva. A mãe, Marlene, era enfermeira. O pai, Jarbas, era professor universitário de Ciências Aplicadas. Jacó não tinha do que reclamar; era o único filho deles, recebeu todo carinho e educação que uma criança solitária necessitava.
Mesmo agora, dez anos depois de ter sido aparentemente abandonado e encontrado, tudo o que Jacó tinha de sua vida passada são dois vestígios; o primeiro é um globo de vidro, suficientemente grande para caber na palma da mão, enviado para ele poucos dias depois de ter chegado ao orfanato. Ele se lembra de um boato de que um tio distante tinha lhe presenteado com o objeto, porém, se fosse o caso, por que o homem nunca foi buscar o sobrinho?
É lógico que, após ter ficado mais velho, Jacó percebeu que isso não passava de conversa fiada. O curioso é que qualquer outra pessoa teria jogado a bola de vidro fora, ou teria tentado quebrá-la, ou até os pais adotivos convenceriam o filho a doar o objeto para uma criança carente.
Todas essas alternativas seriam válidas se a esfera em questão fosse normal, e a de Jacó definitivamente tinha um diferencial peculiar: ela era indestrutível e difícil de desapegar. Ele tentou quebrá-la de diversas maneiras e nunca teve sucesso. Que tipo de vidro era esse? E por mais que ela fosse inútil (nem para decorar o quarto ela servia), o garoto não conseguia se livrar dela; sentia um apego muito grande. Inclusive, ele a deixava dentro da mochila da escola, carregando-a consigo o tempo todo.
Muitas vezes ele se pegou encarando a bola, talvez com a mesma voracidade de um ladrão que quer arrombar um cofre. O vidro era negro, e embora o seu interior não fosse transparente, era possível enxergar pequenos pontos luminosos, como uma galáxia em miniatura. Se a bola pudesse falar, certamente teria uma boa história para contar.
A outra pista que tinha de seu passado eram breves lapsos de lembranças. Nada muito consistente, apenas relances rápidos de uma enorme árvore repleta de frutos pretos, um homem de cabelo e barbas negros e uma gigantesca cidade branca... Tão branca que ofuscava os olhos. Com certeza eram três coisas impossíveis de interligar. O problema é que se esses vislumbres fossem raros, poderiam ser facilmente ignorados. Porém, na medida em que Jacó foi envelhecendo, as visões foram aumentando. Agora aconteciam no mínimo três vezes por semana e eram sempre iguais.
O sinal do intervalo tocou, fazendo o garoto recuperar o senso da realidade. Leandra, sua melhor amiga, o cutucou. Ela estava mais bonita que o normal, com seu cabelo encaracolado amarrado em um rabo-de-cavalo. Ele gostava quando a amiga usava esse penteado, pois ajudava a realçar a beleza do seu rosto moreno.
Os pais de Leandra faleceram antes de ela completar um ano de vida e desde então foi criada pela avó e uma tia. Talvez por isso Jacó se identificasse tanto com ela.
- Está na hora da nossa reunião – ela disse, com sua mochila em mãos.
- Somos empresários – respondeu Jacó, com um sorriso irônico. – Não esquecer compromissos faz parte das nossas obrigações.
Jacó pegou sua mochila e caminhou para fora da escola. O encontro que havia marcado seria atrás do ginásio, quase no limite do quarteirão. Quanto maior a distância, menor eram as chances de serem pegos. Existia um terreno abandonado atrás do ginásio, mas havia um beco entre o muro do terreno e a parede do ginásio.
Mário e seus fiéis escudeiros já estavam lá. Erique, um dos melhores jogadores de vôlei da escola, erguia uma pilha de tijolos para exercitar os bíceps. Como se ele já não fosse forte o suficiente. Roan terminava de comer um sanduíche enquanto conferia mensagens no celular. Mário era o mais nervoso do trio – e também o mais baixo – e não se acalmou ao ver Jacó.
- E aí? – ele perguntou. – Pensou na proposta?
- Bom dia para você também – rebateu Leandra.
- Sim, eu pensei – Jacó respondeu, abrindo a mochila e retirando uma pasta cheia de atividades e trabalhos. – E após uma longa conversa com minha sócia, decidimos continuar com o novo valor.
- Isso não é justo! – protestou Roan, com um pedaço do sanduíche entre os dentes. – Vocês sempre tiveram um preço fixo. Por que aumentar o valor agora?
- Vamos ver... – falou Leandra, olhando para cima e contando nos dedos. – Considerando o tempo perdido para fazer os trabalhos por vocês...
- E toda a criatividade para que nenhum professor perceba que nós dois somos os verdadeiros autores... – complementou Jacó.
- Todo o suor, o estresse, o esforço...
- E se também levarmos em conta a inflação do comércio e os juros...
- Então, nada mais justo que nossa recompensa tenha um pequeno acréscimo – concluiu Leandra.
- Vocês ouviram minha sócia – enfatizou Jacó. – Negócios são negócios.
O passado de Jacó poderia ser nebuloso e cheio de dúvidas, mas o presente era bem divertido. Ele e Leandra eram os alunos da classe que tinham as notas mais altas. Possuíam extrema facilidade para assimilar os conteúdos e ainda tinham tempo de sobra para fazer provas e trabalhos de estudantes preguiçosos. Por questões óbvias, ambos cobravam pelo serviço e Mário era um dos melhores clientes.
Erique largou os tijolos e iniciou uma sequência de abdominais no chão.
- É melhor pagar, Mário – falou o atleta. – Não estou nem um pouco interessado em sair do time por causa de notas baixas.
- Escute seu amigo – sugeriu Leandra. – Parece que há sabedoria por baixo dos músculos.
- O tempo é curto – disse Jacó. – Temos outra reunião depois daqui.
Mário parecia um pouco hesitante, mas o medo de ser reprovado falava mais alto. Ele tinha o hábito estranho de se coçar quando ficava nervoso.
- Tudo bem – ele cedeu, entregando o dinheiro e coçando o ombro. – Negócio fechado.
E então aconteceu. Antes que os dedos de Jacó pudessem tocar no dinheiro, a parede do beco explodiu. Eles estavam acostumados a ouvir o som da explosão de uma bomba de festa junina, mas aquele barulho lembrou o impacto de uma bala de canhão, no mínimo. Pelo menos para isso serviram os documentários de guerra que eram expostos nas aulas de História.
Todos gritaram e desabaram no chão com o susto. Fumaça e poeira taparam a boca e os olhos de Jacó. Ele mal teve tempo de saber se Leandra estava ferida, ou se alguma parte do seu corpo tinha ido parar na China. Após tossir a poeira e a terra, limpou os olhos e não acreditou no que viu.
Uma cortina de fumaça brotava de uma cratera no meio do muro. E de dentro do buraco, por incrível que pareça, irrompeu um robô de três metros de altura. Um homem pulou de um compartimento no interior do robô.
O sujeito usava um capacete metálico com visor transparente. Ele estava com uma armadura esquisita, meio azulada, e seu braço esquerdo era robótico. Ele levantou o visor e observou o estrago feito.

- Desculpe, crianças. Atrapalhei alguma coisa? 

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