As coisas começaram a
ficar confusas quando um robô homicida atacou Jacó.
Era um dia normal. Jacó
acordou cedo, fez o caminho rotineiro até a escola e – como
acontecia toda quarta-feira – assistia a aula semanal de Filosofia
antes do intervalo.
Particularmente, era a
matéria que Jacó mais gostava; o ajudava a refletir bastante a
respeito da sociedade e da realidade. Em especial, naquele desastroso
dia, o professor Laurêncio, com seu cavanhaque estiloso e óculos
tortos, falava sobre Platão, Teoria das Ideias, e o Mito da Caverna.
- E se o que
acreditamos não for real? – perguntou o professor. – E se tudo o
que tocamos, sentimos e vemos for pura ilusão? Como podemos nos
considerar parte deste mundo? E se na verdade fizermos parte de algo
muito maior, mais importante, algo que está acima da normalidade?
Valeria a pena sair do casulo?
Perguntas
interessantes,
pensou Jacó. Ele próprio já tinha perdido a conta de quantas vezes
se sentiu um estranho no ninho, um turista em terras desconhecidas. O
fato de a sua história ter tido um começo difícil e inexplicável
o ajudava a fortalecer a ideia de que ele pertencia a outro lugar.
Jacó não lembrava
absolutamente nada do que aconteceu em sua vida antes dos sete anos.
Com esta idade foi encontrado em frente a um orfanato, em uma noite
chuvosa, sozinho e sem memória de quem o deixou ali. Somente sabia
seu nome. Passou algum tempo no orfanato, mas ali já se destacava
por ser diferente dos outros; era a única criança que preferia ler
o dia inteiro a brincar com os amigos órfãos.
Pouco tempo depois foi
adotado pelo casal Silva. A mãe, Marlene, era enfermeira. O pai,
Jarbas, era professor universitário de Ciências Aplicadas. Jacó
não tinha do que reclamar; era o único filho deles, recebeu todo
carinho e educação que uma criança solitária necessitava.
Mesmo agora, dez anos
depois de ter sido aparentemente abandonado e encontrado, tudo o que
Jacó tinha de sua vida passada são dois vestígios; o primeiro é
um globo de vidro, suficientemente grande para caber na palma da mão,
enviado para ele poucos dias depois de ter chegado ao orfanato. Ele
se lembra de um boato de que um tio distante tinha lhe presenteado
com o objeto, porém, se fosse o caso, por que o homem nunca foi
buscar o sobrinho?
É lógico que, após
ter ficado mais velho, Jacó percebeu que isso não passava de
conversa fiada. O curioso é que qualquer outra pessoa teria jogado a
bola de vidro fora, ou teria tentado quebrá-la, ou até os pais
adotivos convenceriam o filho a doar o objeto para uma criança
carente.
Todas essas alternativas
seriam válidas se a esfera em questão fosse normal, e a de Jacó
definitivamente tinha um diferencial peculiar: ela era indestrutível
e difícil de desapegar. Ele tentou quebrá-la de diversas maneiras e
nunca teve sucesso. Que tipo de vidro era esse? E por mais que ela
fosse inútil (nem para decorar o quarto ela servia), o garoto não
conseguia se livrar dela; sentia um apego muito grande. Inclusive,
ele a deixava dentro da mochila da escola, carregando-a consigo o
tempo todo.
Muitas vezes ele se
pegou encarando a bola, talvez com a mesma voracidade de um ladrão
que quer arrombar um cofre. O vidro era negro, e embora o seu
interior não fosse transparente, era possível enxergar pequenos
pontos luminosos, como uma galáxia em miniatura. Se a bola pudesse
falar, certamente teria uma boa história para contar.
A outra pista que tinha
de seu passado eram breves lapsos de lembranças. Nada muito
consistente, apenas relances rápidos de uma enorme árvore repleta
de frutos pretos, um homem de cabelo e barbas negros e uma gigantesca
cidade branca... Tão branca que ofuscava os olhos. Com certeza eram
três coisas impossíveis de interligar. O problema é que se esses
vislumbres fossem raros, poderiam ser facilmente ignorados. Porém,
na medida em que Jacó foi envelhecendo, as visões foram aumentando.
Agora aconteciam no mínimo três vezes por semana e eram sempre
iguais.
O sinal do intervalo
tocou, fazendo o garoto recuperar o senso da realidade. Leandra, sua
melhor amiga, o cutucou. Ela estava mais bonita que o normal, com seu
cabelo encaracolado amarrado em um rabo-de-cavalo. Ele gostava quando
a amiga usava esse penteado, pois ajudava a realçar a beleza do seu
rosto moreno.
Os pais de Leandra
faleceram antes de ela completar um ano de vida e desde então foi
criada pela avó e uma tia. Talvez por isso Jacó se identificasse
tanto com ela.
- Está na hora da nossa
reunião – ela disse, com sua mochila em mãos.
- Somos empresários –
respondeu Jacó, com um sorriso irônico. – Não esquecer
compromissos faz parte das nossas obrigações.
Jacó pegou sua mochila
e caminhou para fora da escola. O encontro que havia marcado seria
atrás do ginásio, quase no limite do quarteirão. Quanto maior a
distância, menor eram as chances de serem pegos. Existia um terreno
abandonado atrás do ginásio, mas havia um beco entre o muro do
terreno e a parede do ginásio.
Mário e seus fiéis
escudeiros já estavam lá. Erique, um dos melhores jogadores de
vôlei da escola, erguia uma pilha de tijolos para exercitar os
bíceps. Como se ele já não fosse forte o suficiente. Roan
terminava de comer um sanduíche enquanto conferia mensagens no
celular. Mário era o mais nervoso do trio – e também o mais baixo
– e não se acalmou ao ver Jacó.
- E aí? – ele
perguntou. – Pensou na proposta?
- Bom dia para você
também – rebateu Leandra.
- Sim, eu pensei –
Jacó respondeu, abrindo a mochila e retirando uma pasta cheia de
atividades e trabalhos. – E após uma longa conversa com minha
sócia, decidimos continuar com o novo valor.
- Isso não é justo! –
protestou Roan, com um pedaço do sanduíche entre os dentes. –
Vocês sempre tiveram um preço fixo. Por que aumentar o valor agora?
- Vamos ver... – falou
Leandra, olhando para cima e contando nos dedos. – Considerando o
tempo perdido para fazer os trabalhos por vocês...
- E toda a criatividade
para que nenhum professor perceba que nós dois somos os verdadeiros
autores... – complementou Jacó.
- Todo o suor, o
estresse, o esforço...
- E se também levarmos
em conta a inflação do comércio e os juros...
- Então, nada mais
justo que nossa recompensa tenha um pequeno acréscimo – concluiu
Leandra.
- Vocês ouviram minha
sócia – enfatizou Jacó. – Negócios são negócios.
O passado de Jacó
poderia ser nebuloso e cheio de dúvidas, mas o presente era bem
divertido. Ele e Leandra eram os alunos da classe que tinham as notas
mais altas. Possuíam extrema facilidade para assimilar os conteúdos
e ainda tinham tempo de sobra para fazer provas e trabalhos de
estudantes preguiçosos. Por questões óbvias,
ambos cobravam pelo serviço e Mário era um dos melhores clientes.
Erique largou os tijolos
e iniciou uma sequência de abdominais no chão.
- É melhor pagar, Mário
– falou o atleta. – Não estou nem um pouco interessado em sair
do time por causa de notas baixas.
- Escute seu amigo –
sugeriu Leandra. – Parece que há sabedoria por baixo dos músculos.
- O tempo é curto –
disse Jacó. – Temos outra reunião depois daqui.
Mário parecia um pouco
hesitante, mas o medo de ser reprovado falava mais alto. Ele tinha o
hábito estranho de se coçar quando ficava nervoso.
- Tudo bem – ele
cedeu, entregando o dinheiro e coçando o ombro. – Negócio
fechado.
E então aconteceu.
Antes que os dedos de Jacó pudessem tocar no dinheiro, a parede do
beco explodiu. Eles estavam acostumados a ouvir o som da explosão de
uma bomba de festa junina, mas aquele barulho lembrou o impacto de
uma bala de canhão, no mínimo. Pelo menos para isso
serviram os documentários de guerra que eram expostos nas aulas de
História.
Todos gritaram e
desabaram no chão com o susto. Fumaça e poeira taparam a boca e os
olhos de Jacó. Ele mal teve tempo de saber se Leandra estava ferida,
ou se alguma parte do seu corpo tinha ido parar na China. Após
tossir a poeira e a terra, limpou os olhos e não acreditou no que
viu.
Uma cortina de fumaça
brotava de uma cratera no meio do muro. E de dentro do buraco, por
incrível que pareça, irrompeu um robô de três metros de altura.
Um homem pulou de um compartimento no interior do robô.
O sujeito usava um
capacete metálico com visor transparente. Ele estava com uma
armadura esquisita, meio azulada, e seu braço esquerdo era robótico.
Ele levantou o visor e observou o estrago feito.
- Desculpe, crianças.
Atrapalhei alguma coisa?