Jacó desejou que Mário
e seus amigos nunca tivessem levantado. Teria poupado a correria.
Felizmente, todos
estavam bem. Cobertos de sujeira e espantados com um robô que tinha
acabado de fazer um rombo no muro, mas, fora isso, nenhum ferimento
grave.
Por alguma razão, Jacó
preferiu não se mexer e segurou o braço de Leandra para que a amiga
não fizesse qualquer tipo de besteira, porque, pela cara dela, deu
para notar que vontade não faltava. Contudo, para o azar deles,
Mário também estava lá.
O garoto começou a
rir. Roan e Erique também.
- Que troço é esse? –
perguntou Mário. – É uma fantasia de Dia das Bruxas?
- Dia das Bruxas? –
repetiu o homem. – O que vem a ser isso?
- Cara, já sei! –
exclamou Roan, gargalhando. – É uma pegadinha do Silvio Santos!
Jacó percebeu que não
seria nem um pouco inteligente contrariar aquele cara. Era possível
concluir que a explosão foi causada pelo robô, pois um de seus
braços tinha o formato de uma gigantesca bazuca. Observando melhor a
estrutura metálica da criatura, Jacó se questionou quais outros
tipos de armas ela poderia ter... Mísseis? Torpedos? Talvez fosse
melhor não saber.
- Eu não faço ideia
do que vocês estão falando – disse o homem. – A sua espécie é
bem estranha e irritante, de modo que vou direto ao assunto – Ele
aproximou o braço metálico do rosto e digitou alguma coisa no
pequeno teclado portátil. – Meu radar captou o sinal de um objeto
pertencente ao meu mundo. O sinal indica esta posição, o que me
leva a crer que um de vocês é quem procuro. Portanto, vamos direto
ao que interessa. Qual de vocês é o Herdeiro de Evelum?
Evelum.
O nome arrepiou Jacó dos pés à cabeça. Uma fraqueza tomou conta
de seu corpo; ele ficou tonto e teve vontade de vomitar. Imagens
passaram rapidamente diante de seus olhos. No entanto, era necessário
recuperar a atenção... Se o homem procurava alguém e pilotava um
robô capaz de explodir coisas, suas intenções não poderiam ser
amistosas.
- Esse cara só pode
estar chapado! – gritou Erique, também achando engraçado.
- Pode crer! –
concordou Mário. – Não somos usuários, cara. Você deve ter nos
confundido com outra turma. Agora, se nos der licença, estávamos no
meio de uma negociação.
- Pessoal – chamou
Jacó. – Talvez seja melhor a gente ir embora.
O homem encarou Jacó
por alguns segundos.
- É você, não é? –
um sorriso nasceu em seu rosto. – Não está reconhecendo a
linhagem da sua terra natal, Jacó?
Todos encararam Jacó
com expressões confusas. O próprio garoto não estava entendendo
nada.
- Cara, na moral,
ninguém aqui sabe do que você tá falando – disse Roan. – Mas
antes de você ir embora, pode falar onde conseguiu essa beleza de
robô?
Roan tentou se
aproximar do robô, porém ninguém esperava o que veio em seguida. O
homem ergueu seu braço metálico e atingiu o menino com um forte
laser.
Uma mancha preta
surgiu no local onde Roan tinha pisado pela última vez. Partículas
de pó flutuaram pelo beco. Apenas um cego não teria entendido o que
aconteceu ali. Roan foi literalmente pulverizado.
- E então? –
perguntou o homem, ainda com o braço erguido. – Quem vai ser o
próximo?
Mário gritou em
desespero e esse foi o sinal que Jacó esperava parar começar a
correr.
Ele agarrou com mais
força o braço de Leandra e a conduziu à porta lateral do ginásio.
E, como ovelhas ensandecidas que seguem fielmente seu pastor, Mário
e Erique foram logo atrás. O quarteto entrou no ginásio e encontrou
um grupo de alunos treinando futebol.
Jacó imediatamente
compreendeu o erro que cometeu. Não demorou muito. Em questão de
segundos, uma mão robótica arrancou parte do telhado. Todos os
alunos olharam para o buraco recém-formado e viram o robô
despencando. O piso rachou assim que ele pousou.
O pânico se espalhou.
Em meio a tantos alunos gritando e correndo de um lado para o outro,
o robô pareceu perder seu alvo de vista. Jacó se aproveitou disso e
decidiu sair do ginásio. Entretanto, o robô, em um barulho
assustador, atravessou a parede do prédio, espalhando pedras e
tijolos pela rua.
- Não adianta correr,
Jacó! – falou o homem de dentro do robô. Sua voz estava
amplificada. – Posso acompanhar seus passos!
Jacó avançou pela
rua, com o robô em seu encalço. Caramba, a criatura corria bem
rápido! O plano era se afastar o máximo possível. Ele tentou guiar
Leandra e os outros para a avenida mais próxima, mas o caminho foi
interrompido por um carro arremessado pelo robô. O veículo explodiu
assim que tocou no calçamento.
Tudo bem, achar nova
rota. Eles desviaram o percurso em direção à escola. Talvez fosse
provável que o homem de braço metálico ficasse atrapalhado no meio
do tumulto de estudantes. Porém, antes que pudessem cruzar a porta
de entrada do colégio, a mão do robô conseguiu pegar Erique.
- NÃÃÃÃÃÕOOOO...
O atleta voou pelo céu
feito uma bola de golfe, e desapareceu.
- Meu Deus! Meu Deus! –
o grito de Mário superava os dos outros. – Eu não quero morrer!
Mário correu para
outra direção.
- Volte aqui, seu
tapado! – gritou Leandra, mas já era tarde.
Dentro da escola, Jacó
pensou no local mais discreto possível para se esconder. Lembrou-se
de um trabalho de Matemática, no qual teve que calcular a área do
colégio inteiro; em sua pesquisa, ele conseguiu deduzir que no caso
de terremotos e explosões, existia um cômodo perfeito onde poderia
se proteger. A biblioteca. Se corressem até lá, poderiam se
esconder na sala da bibliotecária.
Provavelmente a sala não
era guarnecida de segurança contra máquinas destruidoras e
aterrorizantes, ainda assim o garoto alertou sua amiga e ambos
seguiram o rumo almejado. Eles estavam correndo por um longo corredor
com salas de aula quando escutaram uma explosão que fez tudo tremer.
O homem deveria estar perdendo a paciência.
Ele e Leandra
atravessaram o pátio da escola sem se importar com o caos do
incêndio que se formava. Infelizmente, o robô os encontrou outra
vez e começou a arremessar coisas, como se brincasse de tiro ao
alvo. Algo parecido com um armário em chamas passou raspando pelos
dois.
- Por que se esconde de
mim, Herdeiro de Evelum? – falava o homem, claramente se
divertindo. – Tem medo de me enfrentar? Onde estão suas
mirabolantes habilidades? Não acredito que vim de tão longe apenas
para descobrir que a lenda de fato é uma farsa! Meu Rei não
suportaria essa decepção!
- Do que é que ele
está falando? – perguntou Leandra.
- Eu sei lá! –
respondeu Jacó, quase no limite da exaustão. – Continue correndo!
Eles quase arrancaram
as portas das dobradiças no momento que adentraram na biblioteca.
Por sorte, não tinha mais ninguém lá. Jacó visualizou, no fundo
do salão, muito depois dos livros, a sala da bibliotecária. Era a
luz no fim do túnel.
Eles não pensaram duas
vezes e correram. De repente o ditado “chegar com muita sede ao
pote” passou a fazer sentido. Quando tentaram abrir a porta da
sala, todas as esperanças foram dissipadas.
- Está trancada! –
praguejou Leandra. – E agora?
O coração de Jacó
parou, se é que ainda funcionava para alguma coisa àquela altura. O
garoto percebeu que não havia mais o que fazer. Suas conclusões
foram confirmadas quando o robô quebrou a parede lateral da
biblioteca, trazendo consigo um rastro de fogo e fumaça.
E então, de um modo
completamente inexplicável, ele entendeu. O homem disse que seu
radar tinha captado uma coisa. Jacó abriu sua mochila e viu a sua
velha bola de vidro. Só podia ser isso.
Não importava o quanto
corresse ou quantos lugares encontrasse para se esconder, enquanto
ele estivesse com a bola, o robô sempre o perseguiria.
- Saia daqui – Jacó
pediu a Leandra.
- O que você vai fazer?
Jacó caminhou em
direção ao robô, a mochila em uma das mãos.
- Ah, finalmente
compreendeu, não é? – falou a voz do homem. – Fico contente em
saber que as qualidades do Herdeiro de Evelum não se resumem a medo
e covardia.
O robô parecia ainda
mais ameaçador de perto, mas Jacó se manteve firme. Colocou a mão
na mochila e retirou o globo.
- É isso o que quer?
O robô recuou alguns
passos e a voz do homem ficou nervosa.
- Cuidado com isso,
Jacó. Não se precipite.
Jacó quase não
acreditou no que ouviu. Teria encontrado o ponto fraco daquele
sujeito?
- O que foi? – zombou
o garoto. – Está com medo de uma bolinha?
- Eu não esperava que
fosse... – o homem parecia abismado. – Como pode?
- Na verdade, nem eu sei
muito bem. Essa bola é tão misteriosa quanto eu.
- Entregue-a para mim.
- Vem pegar.
- Está me desafiando?
- É, parece que alguém
aqui finalmente começou a usar o cérebro.
O robô esticou os
braços. Jacó jogou a bola no chão com toda a sua força.
Ele desejou imensamente,
do fundo do coração, que sua ideia estúpida desse certo, embora as
chances fossem mínimas. Jamais havia conseguido quebrar, sequer
arranhar, a esfera de vidro. O que esperava que fosse acontecer? Que
ela explodisse igual a uma granada?
Milagrosamente, o
impossível se fez realidade. O vidro trincou. Depois, a rachadura se
aprofundou. Em seguida, se estilhaçou. Por alguns segundos, o homem
dentro do robô e Jacó ficaram parados, observando e esperando,
perplexos, o que iria acontecer.
O que sobrou do globo
começou a tragar tudo o que havia em volta, como se fosse um
aspirador de pó descontrolado. Estantes, livros, mesas... nada
escapou. O vento que invadiu o lugar foi forte o bastante para fazer
o robô girar pelo ar e o teto se quebrar em diversos pedaços.
Jacó só teve tempo de
se agarrar a uma das pilastras do salão e se arrepender do que fez.
Quem iria imaginar que o objeto que ele carregou durante anos fosse
se transformar em um buraco negro? Ele pensou ter escutado o grito
distante de Leandra e se lembrou de que nem teve a certeza se ela
realmente tinha ido embora.
A pilastra rachou. Iria
se romper em poucos segundos. A biblioteca inteira seria sugada. O
vento continuava tragando as coisas para dentro da esfera,
impiedosamente. Jacó teve a certeza de que não adiantava lutar. Era
uma batalha perdida.
Respirou fundo e soltou
a pilastra.
E tudo se tornou
escuridão.
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