sexta-feira, 23 de outubro de 2015

CAPÍTULO 2

Jacó desejou que Mário e seus amigos nunca tivessem levantado. Teria poupado a correria.
Felizmente, todos estavam bem. Cobertos de sujeira e espantados com um robô que tinha acabado de fazer um rombo no muro, mas, fora isso, nenhum ferimento grave.
Por alguma razão, Jacó preferiu não se mexer e segurou o braço de Leandra para que a amiga não fizesse qualquer tipo de besteira, porque, pela cara dela, deu para notar que vontade não faltava. Contudo, para o azar deles, Mário também estava lá.
O garoto começou a rir. Roan e Erique também.
- Que troço é esse? – perguntou Mário. – É uma fantasia de Dia das Bruxas?
- Dia das Bruxas? – repetiu o homem. – O que vem a ser isso?
- Cara, já sei! – exclamou Roan, gargalhando. – É uma pegadinha do Silvio Santos!
Jacó percebeu que não seria nem um pouco inteligente contrariar aquele cara. Era possível concluir que a explosão foi causada pelo robô, pois um de seus braços tinha o formato de uma gigantesca bazuca. Observando melhor a estrutura metálica da criatura, Jacó se questionou quais outros tipos de armas ela poderia ter... Mísseis? Torpedos? Talvez fosse melhor não saber.
- Eu não faço ideia do que vocês estão falando – disse o homem. – A sua espécie é bem estranha e irritante, de modo que vou direto ao assunto – Ele aproximou o braço metálico do rosto e digitou alguma coisa no pequeno teclado portátil. – Meu radar captou o sinal de um objeto pertencente ao meu mundo. O sinal indica esta posição, o que me leva a crer que um de vocês é quem procuro. Portanto, vamos direto ao que interessa. Qual de vocês é o Herdeiro de Evelum?
Evelum. O nome arrepiou Jacó dos pés à cabeça. Uma fraqueza tomou conta de seu corpo; ele ficou tonto e teve vontade de vomitar. Imagens passaram rapidamente diante de seus olhos. No entanto, era necessário recuperar a atenção... Se o homem procurava alguém e pilotava um robô capaz de explodir coisas, suas intenções não poderiam ser amistosas.
- Esse cara só pode estar chapado! – gritou Erique, também achando engraçado.
- Pode crer! – concordou Mário. – Não somos usuários, cara. Você deve ter nos confundido com outra turma. Agora, se nos der licença, estávamos no meio de uma negociação.
- Pessoal – chamou Jacó. – Talvez seja melhor a gente ir embora.
O homem encarou Jacó por alguns segundos.
- É você, não é? – um sorriso nasceu em seu rosto. – Não está reconhecendo a linhagem da sua terra natal, Jacó?
Todos encararam Jacó com expressões confusas. O próprio garoto não estava entendendo nada.
- Cara, na moral, ninguém aqui sabe do que você tá falando – disse Roan. – Mas antes de você ir embora, pode falar onde conseguiu essa beleza de robô?
Roan tentou se aproximar do robô, porém ninguém esperava o que veio em seguida. O homem ergueu seu braço metálico e atingiu o menino com um forte laser.
Uma mancha preta surgiu no local onde Roan tinha pisado pela última vez. Partículas de pó flutuaram pelo beco. Apenas um cego não teria entendido o que aconteceu ali. Roan foi literalmente pulverizado.
- E então? – perguntou o homem, ainda com o braço erguido. – Quem vai ser o próximo?
Mário gritou em desespero e esse foi o sinal que Jacó esperava parar começar a correr.
Ele agarrou com mais força o braço de Leandra e a conduziu à porta lateral do ginásio. E, como ovelhas ensandecidas que seguem fielmente seu pastor, Mário e Erique foram logo atrás. O quarteto entrou no ginásio e encontrou um grupo de alunos treinando futebol.
Jacó imediatamente compreendeu o erro que cometeu. Não demorou muito. Em questão de segundos, uma mão robótica arrancou parte do telhado. Todos os alunos olharam para o buraco recém-formado e viram o robô despencando. O piso rachou assim que ele pousou.
O pânico se espalhou. Em meio a tantos alunos gritando e correndo de um lado para o outro, o robô pareceu perder seu alvo de vista. Jacó se aproveitou disso e decidiu sair do ginásio. Entretanto, o robô, em um barulho assustador, atravessou a parede do prédio, espalhando pedras e tijolos pela rua.
- Não adianta correr, Jacó! – falou o homem de dentro do robô. Sua voz estava amplificada. – Posso acompanhar seus passos!
Jacó avançou pela rua, com o robô em seu encalço. Caramba, a criatura corria bem rápido! O plano era se afastar o máximo possível. Ele tentou guiar Leandra e os outros para a avenida mais próxima, mas o caminho foi interrompido por um carro arremessado pelo robô. O veículo explodiu assim que tocou no calçamento.
Tudo bem, achar nova rota. Eles desviaram o percurso em direção à escola. Talvez fosse provável que o homem de braço metálico ficasse atrapalhado no meio do tumulto de estudantes. Porém, antes que pudessem cruzar a porta de entrada do colégio, a mão do robô conseguiu pegar Erique.
- NÃÃÃÃÃÕOOOO...
O atleta voou pelo céu feito uma bola de golfe, e desapareceu.
- Meu Deus! Meu Deus! – o grito de Mário superava os dos outros. – Eu não quero morrer!
Mário correu para outra direção.
- Volte aqui, seu tapado! – gritou Leandra, mas já era tarde.
Dentro da escola, Jacó pensou no local mais discreto possível para se esconder. Lembrou-se de um trabalho de Matemática, no qual teve que calcular a área do colégio inteiro; em sua pesquisa, ele conseguiu deduzir que no caso de terremotos e explosões, existia um cômodo perfeito onde poderia se proteger. A biblioteca. Se corressem até lá, poderiam se esconder na sala da bibliotecária.
Provavelmente a sala não era guarnecida de segurança contra máquinas destruidoras e aterrorizantes, ainda assim o garoto alertou sua amiga e ambos seguiram o rumo almejado. Eles estavam correndo por um longo corredor com salas de aula quando escutaram uma explosão que fez tudo tremer. O homem deveria estar perdendo a paciência.
Ele e Leandra atravessaram o pátio da escola sem se importar com o caos do incêndio que se formava. Infelizmente, o robô os encontrou outra vez e começou a arremessar coisas, como se brincasse de tiro ao alvo. Algo parecido com um armário em chamas passou raspando pelos dois.
- Por que se esconde de mim, Herdeiro de Evelum? – falava o homem, claramente se divertindo. – Tem medo de me enfrentar? Onde estão suas mirabolantes habilidades? Não acredito que vim de tão longe apenas para descobrir que a lenda de fato é uma farsa! Meu Rei não suportaria essa decepção!
- Do que é que ele está falando? – perguntou Leandra.
- Eu sei lá! – respondeu Jacó, quase no limite da exaustão. – Continue correndo!
Eles quase arrancaram as portas das dobradiças no momento que adentraram na biblioteca. Por sorte, não tinha mais ninguém lá. Jacó visualizou, no fundo do salão, muito depois dos livros, a sala da bibliotecária. Era a luz no fim do túnel.
Eles não pensaram duas vezes e correram. De repente o ditado “chegar com muita sede ao pote” passou a fazer sentido. Quando tentaram abrir a porta da sala, todas as esperanças foram dissipadas.
- Está trancada! – praguejou Leandra. – E agora?
O coração de Jacó parou, se é que ainda funcionava para alguma coisa àquela altura. O garoto percebeu que não havia mais o que fazer. Suas conclusões foram confirmadas quando o robô quebrou a parede lateral da biblioteca, trazendo consigo um rastro de fogo e fumaça.
E então, de um modo completamente inexplicável, ele entendeu. O homem disse que seu radar tinha captado uma coisa. Jacó abriu sua mochila e viu a sua velha bola de vidro. Só podia ser isso.
Não importava o quanto corresse ou quantos lugares encontrasse para se esconder, enquanto ele estivesse com a bola, o robô sempre o perseguiria.
- Saia daqui – Jacó pediu a Leandra.
- O que você vai fazer?
Jacó caminhou em direção ao robô, a mochila em uma das mãos.
- Ah, finalmente compreendeu, não é? – falou a voz do homem. – Fico contente em saber que as qualidades do Herdeiro de Evelum não se resumem a medo e covardia.
O robô parecia ainda mais ameaçador de perto, mas Jacó se manteve firme. Colocou a mão na mochila e retirou o globo.
- É isso o que quer?
O robô recuou alguns passos e a voz do homem ficou nervosa.
- Cuidado com isso, Jacó. Não se precipite.
Jacó quase não acreditou no que ouviu. Teria encontrado o ponto fraco daquele sujeito?
- O que foi? – zombou o garoto. – Está com medo de uma bolinha?
- Eu não esperava que fosse... – o homem parecia abismado. – Como pode?
- Na verdade, nem eu sei muito bem. Essa bola é tão misteriosa quanto eu.
- Entregue-a para mim.
- Vem pegar.
- Está me desafiando?
- É, parece que alguém aqui finalmente começou a usar o cérebro.
O robô esticou os braços. Jacó jogou a bola no chão com toda a sua força.
Ele desejou imensamente, do fundo do coração, que sua ideia estúpida desse certo, embora as chances fossem mínimas. Jamais havia conseguido quebrar, sequer arranhar, a esfera de vidro. O que esperava que fosse acontecer? Que ela explodisse igual a uma granada?
Milagrosamente, o impossível se fez realidade. O vidro trincou. Depois, a rachadura se aprofundou. Em seguida, se estilhaçou. Por alguns segundos, o homem dentro do robô e Jacó ficaram parados, observando e esperando, perplexos, o que iria acontecer.
O que sobrou do globo começou a tragar tudo o que havia em volta, como se fosse um aspirador de pó descontrolado. Estantes, livros, mesas... nada escapou. O vento que invadiu o lugar foi forte o bastante para fazer o robô girar pelo ar e o teto se quebrar em diversos pedaços.
Jacó só teve tempo de se agarrar a uma das pilastras do salão e se arrepender do que fez. Quem iria imaginar que o objeto que ele carregou durante anos fosse se transformar em um buraco negro? Ele pensou ter escutado o grito distante de Leandra e se lembrou de que nem teve a certeza se ela realmente tinha ido embora.
A pilastra rachou. Iria se romper em poucos segundos. A biblioteca inteira seria sugada. O vento continuava tragando as coisas para dentro da esfera, impiedosamente. Jacó teve a certeza de que não adiantava lutar. Era uma batalha perdida.
Respirou fundo e soltou a pilastra.

E tudo se tornou escuridão. 

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